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01/08/2011



 
OS FORMAIS E O FRIO

 
Quem iria prever que o amor                        esse informal
se dedicaria a eles            tão formais
 
enquanto almoçavam pela primeira vez 
ela muito lenta e ele nem tanto 
e falavam com suspeita objetividade 
de grandes temas em dois volumes 
seu sorriso                         o dela
era como um agouro ou uma fábula 
seu olhar                             o dele                    notava 
como eram seus olhos                    os dela
porém suas palavras                       as dele 
não se davam conta dessas doces questões 
como sempre ou como quase sempre 
a política levou à cultura
 
de modo que à noite assistiram ao teatro 
sem tocar-se uma unha ou um botão 
nem mesmo uma fivela ou uma manga 
e como ao sair fazia muito frio
e ela não usava meias 
só sandálias por onde apareciam 
uns dedos muito brancos e indefesos 
foi preciso entrar num boteco
 
e já que o garçom demorava tanto 
optaram pela confidência 
extra seca e sem gelo por favor
quando chegaram na casa                            dela
e o frio estava nos lábios                               dele
de modo que ela                               fábula e agouro 
lhe deu refúgio e café instantâneos
 
uma hora apenas de biografia e saudades 
até que enfim sobreveio um silêncio 
como se sabe nesses casos é duro 
dizer algo que realmente não sobre
 
ele tentou                           só falta que eu durma aqui
e ela                      tentou porque você não fica
e ele                      não me diga duas vezes
e ela                      bem por que não fica
 
de maneira que ele ficou                               a princípio
a beijar sem usura seus pés frios                               os dela
depois ela beijou os seus lábios                   os dele
que a essa altura já não estavam tão frios
e assim por diante
enquanto os grandes temas
dormiam o sono que eles não dormiram.

(Mario benedeti-1920)

28/07/2011


Em homenagem aos primeiros raios de sol da primavera, 
em meio a garoa e ao frio do inverno...

27/05/2011


 Como você 
Roque Dalton
 (El Salvador, 1935-1975)

Eu como você
amo o amor,
a vida,
o doce encanto das coisas
a paisagem celeste dos dias de janeiro.

Também meu sangue ferve
e rio pelos olhos
que conheceram o brotar das lágrimas.
Creio que o mundo é belo,
que a poesia é como o pão
de todos.

E que minhas veias não terminam em mim,
mas no sangue unânime
dos que lutam pela vida,
pelo amor,
pelas coisas,
pela paisagem e o pão,
pela poesia de todos.

04/05/2011

Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
– E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento! ...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
– E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento ...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

27/12/2010

26/11/2010

primavera

Esta orquídea o namorado trouxe pra casa, faz uns dois anos
e em setembro 2010, ela  deu duas flores maravilhosas,
 que duraram o mês todo no pé.

05/11/2010

A troca da roda



Estou sentado á beira da estrada,
o condutor muda a roda.
Não me agrada o lugar de onde venho.
Não me agrada o lugar para onde vou.
Por que olho a troca da roda
com impaciência?
Brecht